Depois do agradável passeio matinal, seguiu-se uma excursão de navete pelos vales da lua e da morte. Dois desertos que embora não tenham nomes agradáveis, são até pitorescos. Vimos coisas girissimas como pedras, montes grutas e dunas. Tudo muito bonito, tirámos imensas fotografias e espirrámos todos imenso. Eu então era o pior. A principal atração do passeio era o lindo pôr do sol num canion abismal que dava para tirar fotografias espetaculares. Eu tirei umas óptimas amuado atrás do jipe a assoar-me sucessivamente ao mesmo guardanapo imundo. Seguiu-se uma noite febril na qual tenho uma vaga memória de comer esparguete à mão.
Uma das principais pontos desta viagem é o famoso salar do Uyuni. O maior salar do mundo com uma extensão de 10.500 quilómetros quadrados. Saídos de Atacama, com o objectivo de alcançar o dito salar, parámos na fronteira com a Bolívia. A fronteira mais surreal da história. Cinco graus negativos, 4.500 metros de altitude, turistas a cair que nem tordos e um boliviano com um ar mole a carimbar passaportes. Aqui, vale a pena referir, registamos a perseguição vigente por parte de um particular grupo de turistas. A mesma loira com um ar nórdico e pouco esperto que vem nas mesmas camionetas e excursões desde Santiago. Loira essa que nos seguirá até La Paz.
Para esta deliciosa excursão pelo salar, alugámos um jipe e respectivo motorist. De seu nome Daniel, boliviano de metro e meio, ficou de nos conduzir através dos desertos até Uyuni. Rapaz simpático de bigode mal aparado, que deglutia folhas de coca como se não houvesse amanhã. Mostrou desde o início ser um excelente profissional. Trouxe-nos sãos e salvos até à civilização. Quase nunca adormeceu ao volante e só ficámos sem gasolina uma vez. Mas foi tudo óptimo porque tendo em conta o pára-brisas rachado, as janelas que só abriam às vezes e o tablier com vida própria, o simples facto de chegarmos os quatro inteiros foi um luxo.
Sempre na companhia de dois alemães taciturnos, percorremos os intermináveis quilómetros de deserto que nós separavam do dito salar. Pelo caminho tivémos o prazer de visitar a variadissima paisagem boliviana. Vimos por exemplo as lindas lagoas. A branca, a azul, a verde, a cor-de-rosa, a roxa, a amarela e mais uma série delas que o meu subconsciente terá bloqueado entretanto. Vimos também bonitas planícies e planaltos. Cheios de vicuñas (espécie de alpaca enfezada) flamingos e gaivotas andinas. Uma vasta fauna que se fazia acompanhar por uma ainda mais diversificada flora. Uns frouxos arbustos acastanhados que faziam qualquer pessoa recordar a cabeleira empinada do Gil, mascote da Expo 98.
Foram dois dias disto. Intercalados apenas por um vulcão levemente fumegante no horizonte. "Não se preocupem..." Dizia Daniel com ar mole enquanto nos fazia uma salada de atum na bagageira do jipe. "Está activo o vulcão mas não costuma entrar em erupção." E assim foi. O vulcão não matou a gente, mas as dormidas quase. A primeira noite foi passada num buraco sem eletricidade cujas camas eram feitas de uma argamassa de betão armado. A segunda, num casebre mascarado de hotel com meia dúzia de pacotes de sal espalhados no chão. Tudo isto vendido ao turista como: A grande aventura do hotel feito de sal! Entre as camas confortáveis, os banhos de água frigida e os bifes de carne de lama, não morremos por acaso. Ximpa alucinava, Mimi aturava-o, a Marta roncava e eu refilava. Tudo isto com a modesta temperatura de 10 graus negativos.
As temperaturas díspares têm sido o pão nosso de cada dia nesta viagem. De dia um calor que não se pode (Ximpa mantém-se de kispo), à noite um frio indescritível (Ximpa vai lá fora fumar de tshirt). Estas temperaturas agradáveis fazem-se acompanhar do nosso novo melhor amigo. O pó! No deserto, faz pó. O jipe, é feito de pó. A mantinha da cama, é metade algodão metade pó. Até a merda do café vem em pó! Caso para dizer, vão pó canário.
Mas o salar é bonito e a malta divertiu-se. Horas a fio perdidas a tirar as mais recambolescas fotografias de perspectivas. Vá agora eu nas mãos da Mimi. Não não, agora eu a comer a Marta. Vai mais para trás. Vai mais para o lado. Cumprida a sessão fotográfica da praxe o nosso caríssimo Daniel fazia um grande esforço para nos mostrar coisas interessantes, preciosas e muy importantes. Mas a malta ia embaladinha dentro do jipe e mandou-o dar sucessivas curvas. Curvas essas que resultaram no inevitável fim da visita ao salar e no desenrolar das nossas viagens.
Na bonita cidade de Uyuni, conseguimos marcar os últimos quatro lugares na camioneta para La Paz. Cinco horinhas à espera, mais dez de viagem. Três pizzas e quatro chi-"Kilattes" depois, lá chegados ao merecido banho de água escaldante. Corremos que nem desalmados às seis da manhã para o tão desejado duche. Não garanto porque por razões óbvias não fui confirmar, mas desconfio que tal era a pressa de se lavar que o Ximpa nem o kispo tirou. Estivemos a conversar e desconfiamos que já faz parte do seu organismo.
Neste momento estou espojado na cama de uma linda residencial boliviana. La Paz é o caos e hoje é o dia da independência. Maneiras que assistimos à cerimónia de celebração a dois metros de distância do camarada Ivo Morales. O grande líder da nação boliviana que figura em outdoors por todo o país. Sempre de capacete das obras na cabeça com dizeres do género "gás para todos os bolivianos" ou "teleferico, una grand obra para todos". Esta grande figura da política latina, estava portanto ao nosso lado na praça principal da cidade, com o cabelo pastoso e farda engomada, a ver marchar as tropas dos diferentes ramos das forças armadas. A pompa e circunstância esteve ao rubro. Só perdi a fé no poder do estado, quando a força aérea surge a tocar e a marchar a música da Guerra das Estrelas. O que até veio a propósito uma vez que estavam todos fardados de igual ao Jarjar Binks.
Mais notícias surgirão em breve, caso ninguém faleça a descer a estrada da morte (à qual me irei baldar com toda a certeza).