Vou ali e já venho: Fujísse!


Conforme publicada nos Diários de Viagens a 27/05/2014


Saídos do tradicional pequeno almoço exótico à la japonês, fizemo-nos à estrada com destino ao Monte Fuji. Saídos da confusão de Tóquio, o objectivo era descansar qualquer coisinha nas margens do lago Kawaguchi, com vista para a famosa montanha.
É de relembrar nesta fase, que nós éramos portadores do famoso JR Pass. O tal bilhete tipo interrail para as linhas públicas japonesas. Porém, é nestas ocasiões que surgem as boas armadilhas para turistas. A única linha de acesso ao monte Fuji é de concessão privada e como tal, não se encontra ao abrigo do tal bilhete mágico. Depois de mudarmos de comboio quatro vezes (em estações obscuras com nomes impronunciáveis) lá nos obrigaram a derreter mais 2.000 Yens cada um. Ora os dois bilhetes de ida e volta acabaram por nos custar uma pequena e inesperada fortuna.
Com os azeites, enquanto bufava pragas orientais às pessoas que se misturavam à nossa volta, embarcámos no tal comboio privado. Antes de prosseguir é de fazer uma pausa para explicar como são os comboios no Japão. Para ficarem mais ou menos com uma ideia, todos os guias turísticos que li nos falavam nos Shinkasens. O equivalente a um TGV mas mais rápido e mais luxuoso. Procurei na internet e realmente vi imagens fantásticas de naves semi-espaciais que transportam as pessoas a 300 e tal quilómetros por hora. Pois este comboio da linha Fuji fazia mais lembrar uma imitação low cost da linha de Sintra, do que os ditos Shinkasen. Começava logo bem, com uns pseudo-bancos aquecidos que davam para cozinhar um frango. Cadeiras com um ar manhoso que não deviam ser lavadas desde 1974 e um par de gordas tailandesas sentadas à nossa frente que tinham ar de quem nos ia dar uma trinca a qualquer momento. Definitivamente não era o que eu tinha em mente quando pensei em relaxar à beirinha do Fuji. Mas não sejamos picuinhas.
Saídos do comboio depois desta odisseia, estávamos famintos e completamente perdidos. Do nada, damos por nós numa cidade de montanha que fazia lembrar bastante Andorra-a-velha. Uns resquícios de neve à nossa volta e o tal do monte lá atrás. Pedimos a um local para nos tirar uma fotografia que ficou terrível. Comemos uns noodles estilo Michael Phelps (a nadar numa aguadilha amarela de aspecto duvidoso). E vagueamos pelo centro de turismo. Lá conseguimos descobrir o hotel e como se isso não nos fizesse logo sentir-nos mais felizes, ainda vimos um anúncio escrito em Português. "Aulas de Japonês aosestrangeiros, porque queremos ajudar o imigrante."
O próprio do hotel era todo ele em estilo tradicional japonês. Assim que chegámos, fomos recebidos por toda uma comitiva com os olhinhos em bico. Veio uma senhora muito simpática, com os dentes muito estragados e um bafo muito desagradável, que não nos deixou levar as malas. Enquanto a senhora acartava as toneladas de tralha que trazíamos, ascendemos ao quarto, todo ele coberto num lindo chão de tatame [piso tradicional japonês]. Da janela via-se o lago, grande vista e tal e tal. Mas a mulher não nos deixou curtir a cena. Obrigou-nos a sentar ao lado dela e teve três horas a dar-me instruções em japonês das quais eu não percebi rigorosamente nada! Mostrou-me plantas do hotel, pacotes de chá, fotocópias de cenas e mais uma catrefada de tralha. Eu ia dizendo a tudo que sim com um ar muito solícito. E ela continuava alegremente.
A certa altura a senhora do pivete oral manda-nos levantar e começa a vestir-nos uns lindos roupões chinocas. As yukatas, como são chamadas, usam-se para andar por casa. E em dias de frio, por baixo dos quimonos. O nosso era amarelo ranho com uns bordados sinistros. Mas a mulher estava motivada a vestir-nos e nós lá deixámos. Só que quando chegou a minha vez, essa grande besta, desata a chamar-me gordo e a dar-me palmadinhas na barriga. Eu que já estava farto de a ouvir decidi que estava na hora e arranquei para os banhos.
No Japão existe uma enorme cultura à volta dos onsens [banhos de água termal]. Banhos de água quente, tipo termais. São banhos comunitários (homens para um lado, mulheres para o outro), ao ar livre e de acesso gratuito. Perdem horas e horas naquilo. E sendo parte da cultura nipónica, claro que fui experimentar. Lá segui eu todo nú para um balde de água a escaldar com neve à minha volta. Ao meu lado havia um velho mesmo velho a regar a salada de fruta. Atrás de mim um paizinho com uma criancinha que berrava e refilava porque estava na casa de banho dos homens. Mas foi só quando entrou o jovem tatuado que olhava de mais é que eu decidi que estava na hora de dar à soleta.
No geral foi uma noite bem passada. Deu para descansar. A única coisa que havia para fazer por ali era torrar dinheiro nos restaurantes ou nas lojas de souvenir/coffee/fancy shop. Provei o famoso cheesecake do monte Fuji (que só é mesmo famoso lá na terra dele, nunca tinha ouvido falar), adquiri uma garrafita de saquê e tive vários ataques da riso com a Marta que insistia que as yukatas (os tais roupões) na realidade se chamavam "Muchachos". Valeu a pena. Principalmente porque no dia seguinte se enganaram na conta e cobraram-me o dobro do preço do hotel. Mas como são muito correctos e honestos, já me transferiram a diferença. Só que a taxa de câmbio está agora mais favorável. Ou seja, acabei por ganhar qualquer coisa com o negócio. E pimbas! Consegui abater o tal desfalque da linha de comboio que tivemos de pagar.
Deixo aqui apenas um conselho. Se viajarem pelo Japão e virem retretes com muitos botõezinhos com um ar moderno, não carreguem! Das profundezas do trono saem jactos de água e outros líquidos que supostamente ajudam a pessoa na actividade fecal. Fiquei perturbado e nunca mais serei o mesmo. Mais não digo.

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