Mochilão: Biciclismo de montanha


Da última vez que escrevi estávamos de partida de Santiago do Chile com destino a Atacama. Escrevi inclusive a bordo de uma interminável camioneta de 24h, onde um hospedeiro indeciso, engraçou com Ximpa. Mas o transporte era super confortável, com sandochas comestíveis e filmes aceitáveis.  O que significa que chegados a San Pedro deparámos-nos pela primeira vez com a verdadeira América do Sul. Estradas pavimentadas é mentira. As casas são feitas de um mix de tijoleira e terracota. Há perros por todo o lado e a iluminação é feita à luz dos telemóveis. Sentimo-nos pela primeira vez os verdadeiros exploradores aventureiros. Tal qual Coronel Tapioca aos saltos na cordilheira. Porém, bastaram 5 minutos para perceber que o coronel está reformado e que de aventureiros temos pouco. Cada esquina tem a sua agência turística. Cada rua, vinte hotéis. Para cada 10 pessoas, 8 são estrangeiros. E em cada esquina há um restaurante com menus em inglês onde somos servidos por Chilenos com um ar desdentado e pouco lavado.

Em San Pedro de Atacama há muito para fazer. Começámos logo por alugar quatro binas. Aquilo foi pedalar que nem animais durante uma hora e meia. Fomos até uma atração turística, que dá pelo nome de laguna de Cejar. Uma hora e meia que diga-se de passagem, souberam a 7h. Lá ia o gordo com os bofes de fora a suar da testa tipo catarata do Iguaçu. É preciso esclarecer é que isto se passa no meio do deserto com 30 graus a 3.500 metros de altitude. E eu que sou um elegante atleta de sofá, demorei a acostumar-me a tão extremas condições. Daí a agradável figura com a qual me apresento no momento da chegada. Momento esse em que nos deparamos com uma aguadilha esbranquiçada cheia de bichinhos e uma concentração de sal substancial. Uma espécie de Mar Morto low cost a falar em espanhol. Claro que nos atirámos para a água gelada que nem cães esfaimados, onde boiámos alegremente em jeito de recuperação.

O regresso então foi espetacular. As meninas (mais uma vez, desculpa Mimi) voltaram com o cú tremido, à boleia, na parte de trás de uma pick-up. Nós os homens, valentes machos latinos que somos, lá pedalámos mais 1h a abrir, para tentar apanhar a tour seguinte. Quer dizer... Pedalámos é um conceito relativo. Eu esperneei de forma inconsistente em cima do celim. Sempre de língua de fora e cascata na cara. Facto que certamente envergonhará meu paizinho, ciclista distinto, que até já foi a Roma e tudo. Já o meu amigo Ximpa, que se encontra melhor preparado, fumava, filmava, andava sem mãos, sem braços e sem pernas. Tudo isto com o ar mais tranquilo do mundo, de kispo vestido à chapa do sol. Com os tais 30 graus a bater forte. Tanto me irritou que pedi boleia ao primeiro carro que passou. Lá fui, também eu no conforto automóvel, mas apenas os últimos 500 metros.


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